Buracos nas ruas brasileiras expõem falhas na gestão e manutenção, diz especialista
Engenheiro explica como problemas técnicos, falta de drenagem e ausência de planejamento contribuem para a deterioração precoce do asfalto nas cidades brasileiras
Os buracos nas ruas são um problema crônico em cidades de todo o Brasil — e vão muito além do desconforto ao dirigir. Eles representam prejuízos financeiros, riscos à segurança e um sinal claro de falhas na gestão da infraestrutura urbana. Apesar de recorrente, a origem desse problema ainda gera dúvidas: seria falta de investimento, materiais de baixa qualidade ou erros técnicos na execução das obras?
Para entender melhor o que está por trás da deterioração do asfalto, a reportagem conversou com o engenheiro e professor Felipe Cava, do Centro Universitário FEI, em São Bernardo do Campo (SP). Com experiência na área de pavimentação, o especialista detalha os fatores que contribuem para o surgimento de buracos e explica por que soluções aparentemente simples nem sempre resolvem o problema de forma duradoura.
Na entrevista a seguir, Cava aborda desde falhas estruturais e ausência de drenagem até problemas de gestão e fiscalização. Ele também analisa o uso de novas tecnologias no setor e aponta os principais entraves para a melhoria da qualidade das vias urbanas no país — além de comentar se há exemplos positivos a serem seguidos no Brasil e no exterior.
Folha de Itupeva: Quais são as principais falhas técnicas que levam ao surgimento de buracos nas ruas brasileiras?
Felipe Cava: O buraco é na verdade o avanço de outros defeitos que surgem nos pavimentos. Com a passagem dos veículos, os pavimentos vão sofrendo deformações que levam ao aparecimento do que chamamos de trincas de fadiga. A ação dinâmica dos veículos, e da água nos dias de chuva, acaba fazendo com que esses pedaços trincados do pavimentos se soltem e, assim, aparecem os buracos.
Folha de Itupeva: A qualidade do asfalto utilizado nas cidades brasileiras é, de fato, inferior? Ou o problema está mais na base da pavimentação?
Felipe Cava: Isso é algo que depende muito de cada local. Mas, normalmente, o material não é a principal fonte dos problemas em cidades. A falta de manutenções e de monitoramento sim.
Folha de Itupeva: Em que medida a falta de drenagem contribui para a deterioração precoce do pavimento?
Felipe Cava: Drenagem e pavimentação caminham juntos. A falta de drenagem pode condenar um pavimento. Caso um pavimento não tenha drenagem, a água precipitada pode infiltrar por trincas e ficar armazenada na estrutura por mais tempo. Isso fará com que a capacidade estrutural do pavimento seja reduzida e, consequentemente, diminuirá a vida útil.
Folha de Itupeva: O que pesa mais nas más condições das vias urbanas: limitações orçamentárias ou má gestão dos recursos?
Felipe Cava: A má gestão dos recursos, sem dúvida. Isso impacta inclusive no que chamamos de sistema de gerência de pavimentos. A Gerência de Pavimentos nada mais é do que um conjunto de atividades para otimizar investimentos na infraestrutura. Ou seja, fazer mais gastando menos. O problema é que muitas prefeituras não fazem isso. Elas acabam atuando apenas de forma emergencial, corrigindo defeitos que aparecem, e não cuidando para que justamente eles não apareçam. É necessária uma mudança na forma de abordagem. Enquanto os recursos forem gastos para apenas corrigir defeitos que aparecem, continuaremos com pavimentos ruins.
Folha de Itupeva: O senhor acredita que há falhas recorrentes na fiscalização das obras de pavimentação no Brasil?
Felipe Cava: Sim. Infelizmente há uma falta de capacitação técnica também, o que leva aos erros de execução e fiscalização.
Folha de Itupeva: O Brasil já dispõe de tecnologias como asfalto-borracha, concreto ou asfalto morno. O que impede a adoção mais ampla dessas alternativas? Em quais situações o senhor recomendaria o uso de pavimento de concreto em vez de asfalto tradicional?
Felipe Cava: Como já comentado, a culpa dos pavimentos que temos não está no material. Precisamos mudar a forma de abordagem, isto é, de como tratamos a infraestrutura. Precisamos parar de fazer manutenção apenas quando o pavimento já está condenado. Ou, ainda, quando a população faz muitas reclamações. A adoção de um sistema de gerência de pavimentos poderia melhorar isso. Técnicas de asfalto-borracha, asfalto morno ou pavimentos de concreto são excelentes. Mas, sem a gerência de pavimentos, eles não vão resolver o problema.
Folha de Itupeva: E para finalizar, existem cidades ou estados brasileiros que vêm adotando boas práticas em pavimentação urbana? Poderia citar exemplos?
Felipe Cava: Gostaria de dizer que sim. Mas, infelizmente, eu desconheço exemplos no Brasil. No exterior temos excelentes exemplos de cidades que cuidam da sua infraestrutura. Por exemplo, Madrid.



